quarta-feira, 22 de maio de 2013

Ano II - número 9 - mai./jun. / 13: Acentuação

TEXTO:  In: ANGELI, José.
Dom Quixote
         A intençao de Cervantes, ao escrever o Dom Quixote, era satirizar a novela de cavalaria, que tinha sido muito popular na Europa e em sua epoca enfrentava a decadencia. Mas acabou retratando o perfil do homem dividido entre a fantasia e a realidade. Dom Quixote, fidalgo ingenuo e atraido pela historia dos grandes cavaleiros medievais, sai pelo mundo como um deles, numa epoca em que isso ja nao existia mais. Nos seus delirios, luta contra moinhos de vento achando que sao gigantes crueis. Beija a mao de uma guardadora de porcos pensando que e sua amada Dulcineia. Sancho Pança, seu fiel escudeiro, admira o amo sem entende-lo. Tem os pes na terra e uma visao pratica das coisas, mas e fascinado pela sua loucura. Duas figuras cheias de bondade e pureza, num mundo onde nao ha lugar para a bondade e a pureza.

ANALISANDO O TEXTO
1. Você percebeu que, de propósito, foram tirados do texto todos os sinais gráficos indicadores de sílabas tônicas ou de nasalização para que possamos colocá-los todos, justificando cada caso.
2. Intenção (nasalização); época (proparoxítona); decadência / ingênuo (paroxítonas terminadas em ditongo crescente); atraído (hiato); história (paroxítona terminada em ditongo crescente); época (proparoxítona); já (monossílabo tônico); não (nasalização); delírios (paroxítona terminada em ditongo crescente); sao (nasalização); cruéis (ditongo aberto tônico); mão (nasalização); é (monossílabo tônico); Dulcinéia (ditongo aberto tônico); entendê-lo (oxítona terminada em e fechado); pés (monossílabo tônico aberto); não (nasalização); há (monossílabo tônico aberto).
3. Tanto em moinho como em moído existe hiato. Porém, no primeiro caso, o i não recebe acento gráfico e no segundo caso, sim.
4. A regra é a seguinte: devem ser acentuados o i e o u tônicos que formam hiato com a vogal anterior, como no caso de moído; entretanto, não devem ser acentuados o i e o u quando formam hiato e vêm seguidos de l, m, n, r, z (desde que não comecem sílabas) ou seguidos do dígrafo nh, como no caso de moinho.


quarta-feira, 20 de março de 2013

Ano II - número 8 - mar./abr. / 13: Ortografia

TEXTO:  crônica de autoria de Mario Prata. In: O Estado de S. Paulo, 12/11/1997.
Acabaram com a nossa letra
         Faço as minhas compras no supermercado, pego o meu talão de cheques, vou preencher. A mocinha:
           _ Pode deixar que a máquina faz isso!
           Fico uns segundos atabalhoado, olho para o cheque.
           _ Faço questão de eu mesmo preencher.
           E preenchi.
           A cena é corriqueira, não é? Mas ali, naquele momento, aquela mocinha estava me tirando o prazer de colocar a minha letra no cheque. Afinal, pensei eu naquele momento, é a única coisa que eu escrevo à mão: o cheque.
       Você já notou que a gente não escreve mais nada? Nada! Acho que desde que saí da faculdade não uso a mão para tais finalidades. Estão aí todas as máquinas e cartões para tal uso.
         E olha que aprender a escrever à mão, no meu tempo, era uma dificuldade. No curso primário a gente tinha aula de linguagem. Tinha o caderno de linguagem, que todos eram obrigados a comprar. A linha era subdividida em duas partes, sendo a de baixo menorzinha para caberem as letras baixas, como o "a" e o "o", por exemplo. E quando pintava um "l" ou um "t", tinha que ir até lá em cima. Assim, todo mundo ficava com a letra igual à da professora, que era perfeita, por sinal.
            Com o passar dos anos e com o desuso, a minha letra foi ficando horrorosa. Nem eu mesmo entendia. Passei a só escrever em letra de forma. O tempo passou mais e mais e a letra de forma se foi deformando toda. Mas dava para o cheque. Agora, com a máquina de preencher cheque, lá se vai a minha letra. Com você anda acontecendo o mesmo? 
                Tenho certeza que, no futuro próximo, os alunos vão levar os notebooks para a sala de aula. A letra à mão será coisa pré-histórica. Imagino os novos alunos, quando já grandinhos, olhando as receitas dos médicos e imaginando que os pais e avós escreviam daquele jeito. Ou será que também os médicos vão ter uma maquininha para dar suas tortas receitas?
                Fico triste ao constatar tudo isso. É como se uma parte de mim fosse embora. Uma parte 
trabalhada duramente durante anos e anos.
              O correio-elegante das quermesses, como ficará? Persistirá, mesmo com as pessoas tendo letras cada vez mais confusas? Como conquistar uma moça com aquela letra, gente? E o cartãozinho das flores remetidas? Será que só usaremos as letras manuais para os motivos apaixonantes?
                 Chegará o momento que usaremos a nossa mão apenas para a assinatura. Ou será que teremos um cartão a laser que, passado em cima de um papel, depois de codificado por um número, imprimirá nossa assinatura? Ou será que voltaremos ao uso infalível da impressão digital?
                Será que um dia chegaremos ao absurdo de ser proibido escrever à mão? Penas pesadas   para os infratores? Fulano preso escrevendo poesias em plena praça. O que o pai do fulano não vai pensar daquilo? Mesmo a multa aplicada pelo guarda não será escrita à mão. Ele digita a placa do seu carro e a informação vai diretamente para o Detran.
               Nos países mais metidos a besta (também conhecidos como Primeiro Mundo), os garçons já pegam o seu pedido com um minicomputador que leva imediatamente o seu pedido para o cozinheiro. Nem garçom vai escrever mais.
           Claro que o jogo do bicho será rapidamente informatizado, evitando aqueles papeizinhos que a gente sempre perde ou não confere. Sorteio de amigo-secreto com aqueles pedacinhos de papéis dobrados. Sobreviverá? Haverá, na repartição, ainda alguém com boa letra para tanto?
                Como as secretárias vão avisar o chefe que fulano telefonou a tal hora? Tudo por cabos eletrônicos, é claro.
                 Agendas eletrônicas já se encontram em qualquer das boas casas do ramo.
                 E conta? Alguém ainda faz contas no papel? Será que nas escolas ainda ensinam raiz quadrada, com o aluno ali com a sua calculadora? Você deve saber que, nos vestibulares, já se admitem as tais maquininhas.
                    Listinha de pecados para se confessar. Grava-se num gravadorzinho e enfia no ouvido do padre. Afinal, os nossos pecados são sempre os mesmos. Principalmente o pecado da preguiça, que marcará nossas vidas neste século que está chegando. Em algarismos romanos, sei lá por quê.


ANALISANDO O TEXTO
1.  O texto é uma crônica muito bem-humorada do escritor Mario Prata, que, tendo como ponto de partida a máquina eletrônica de preencher cheques, mostra um homem engolido pela sociedade tecnológica.
2.  O cronista lamenta que, paulatinamente, através do uso das máquinas, as pessoas deixem de escrever. O fato desencadeador de suas reflexões é aquilo de novo no supermercado: a máquina preenche o cheque. O ato de escrever corre o sério risco de desaparecer. 
3.  A palavra letra é empregada com alguns significados:  de caligrafia ("... a minha letra foi ficando horrorosa.") e de sinal gráfico utilizado na escrita ("... sendo a de baixo menorzinha para caberem as letras baixas ...").
4.  Pensando nos mecanismos que podem substituir a escrita manual, após uma série de conjeturas, o autor indaga: "Ou será que voltaremos ao uso infalível da impressão digital?". Depois de um longo período de substituição da escrita manual, ele sugere que a volta à impressão digital representa a volta ao analfabetismo. Supõe-se que, deixando de escrever, o homem se esqueça de tudo. Na realidade, os registros continuariam sendo feitos de outra maneira e a leitura continuaria existindo.
5.  A última frase da crônica se relaciona com tudo o que Mario Prata disse, pois ele sugere que acontecerá com a escrita manual o mesmo que acontece com os algarismos romanos: tão distantes do nosso mundo atual e tão anacrônicos.
6.  Para escrever um texto, uma pessoa necessita de um lápis ou de uma caneta, de um pedaço de carvão, de uma máquina de escrever ou de um computador; necessita de papel ou muro ou parede, tábua, pedra, areia da praia; precisa ter uma idéia, conhecer as letras e as palavras, enfim, precisa ser alfabetizada. 

                 

            

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Ano II - número 7 - jan./fev. / 13: Fonologia

         Na presente publicação, o BLOG PROF. STEFAN - LÍNGUA PORTUGUESA - TEXTOS está celebrando o seu primeiro ano na rede mundial de computadores. O BLOG jubilosamente estende as congratulações a todos os internautas leitores, que aperfeiçoam continuamente a sua comunicação lingüística através da rica variedade de textos apresentada.

TEXTO:  Epidemia polissilábica  (Otto Lara Resende)

         RIO DE JANEIRO - Já se disse que a crise é de dicionário. Paulo Rónai denunciou a existência de uma geração sem palavras. Uma só, não, digo eu. Várias. A crise é semântica, disse um professor na Sorbonne, que convocou um seminário. Pode ser, diz o Pedro Gomes. Mas é também polissilábica. E me expõe a sua tese: nenhum país agüenta tantos palavrões como os que circulam agora por aí. Palavrão no sentido estrito de palavra grande.
             A maior delas, como aprendemos na remota infância, tem até governado o Brasil. É essa mesmo: inconstitucionalissimamente. Depois deste advérbio, no seu hoje modesto pioneirismo, apareceram verdadeiros bondes vocabulares. Autênticos minhocões. São cada vez mais numerosos e compridos, como a composição ferroviária que transporta minérios. A perder de vista, todos têm de cinco sílabas para cima. São centopéias de tirar o fôlego e de destroncar a língua.
            Na porta do Jockey, depois do almoço, um sujeito conversava outro dia, sereno, sobre a atratividade do investimento superavitário. Temi pela sua digestão, se é que não foi vítima de uma congestão. Ou de um insulto cerebral. Mas há pessoas insuscetíveis de insulto, sobretudo cerebral. É o caso do cidadão que discorreu sobre o obstaculizado caminho que o Brasil tem de percorrer, se quiser alcançar um nível de competitividade num cenário de internacionalização do livre-cambismo.
                  Até a carta-testamento do Getúlio, obstaculizar não tinha feito a sua aparição triunfal. Dizem que foi idéia do Maciel Filho, que tinha este vezo nacionalista da palavra complicada. Na verdade, é difícil inovar o jargão político. Para atacar José Américo de Almeida, história antiga, Benedito Valladares lançou no mercado a palavra boquirroto. Logo os adversários disseram que era soprado pelo Orozimbo Nonato, um íntimo do Vieira e do Bernardes. Arrazoava com um cunho seiscentista.
                Enfim, tudo hoje em dia gera distorções. Gerar é um verbo-ônibus. Serve para tudo. Confiemos, porém, que a seu tempo, a nível de país, na expressão abominável que hoje é corrente, a solução seja equacionada. A desestabilização extrapola de qualquer colocação. Longe de mim o catastrofismo, mas no caminho polissilábico em que vamos, a ingovernabilidade é fatal. E talvez passemos antes pela platino-dolarização contingencial.   (Folha de S. Paulo, 22/07/91)


ANALISANDO O TEXTO
1.  O primeiro parágrafo apresenta o assunto que será tratado. A estratégia utilizada para isso é a seguinte: para introduzir o assunto, o texto apresenta primeiramente afirmações relacionadas a ele (a "crise do dicionário", a "geração sem palavras" e a "crise semântica") para posteriormente (através de uma frase introduzida pela conjunção coordenativa adversativa "mas") seguir para o tema central: o excesso de polissílabos. O humor participa já nesse parágrafo, quando existe referência aos sentidos possíveis do vocábulo "palavrão".
2.  Já o segundo, o terceiro e o quarto parágrafos  levantam dados para desenvolver o assunto proposto. Os dados oferecidos na argumentação são os seguintes: partindo da célebre palavra "inconstitucionalissimamente", o autor cita vários episódios em que os polissílabos foram usados abusivamente. O texto utiliza esses episódios e as palavras nele envolvidas para comprovar a tese de que os polissílabos invadiram o Brasil.
3.  O "palavrão"  "tem até governado o Brasil" porque, durante o ano de 1991, diversos decretos e leis inconstitucionais foram encaminhados ao Congresso Nacional e alguns deles foram aprovados pelo então presidente da República, Fernando Collor de Mello.
4.  A passagem "Mas há pessoas insuscetíveis de insulto, sobretudo cerebral."  é irônica. Ela sugere que há pessoas cuja capacidade cerebral limitada as torna invulneráveis a insultos. Elas provavelmente não os entenderiam.
5.  Ser  "íntimo do Vieira e do Bernardes" significa ser leitor dos autores clássicos da língua portuguesa, no caso, os padres Antônio Vieira e Manuel Bernardes, que foram escritores no século XVII. Otto Lara Resende era, evidentemente, conhecedor desses autores e dos outros citados no texto. Pressupõe-se que o leitor seja capaz de compreender tais referências. Assim, caracteriza-se o perfil do emissor e do receptor do texto.
6.  "Verbo-ônibus" é um verbo que "serve para tudo", isto é, utilizado com os mais variados sentidos nos mais diversos contextos.
7.  O último parágrafo expõe a conclusão do texto. A ironia novamente é o principal recurso expressivo, pois o autor utiliza os polissílabos sobre os quais vinha falando, criando uma linguagem empolada de forma ridícula.
8.  O texto apresenta muitas imagens deliciosas para se referir aos polissílabos: "bondes vocabulares", "autênticos minhocões", "composição ferroviária que transporta minérios", "centopéias de tirar o fôlego e de destroncar a língua".
9.  O abuso de polissílabos é prejudicial à comunicação na medida em que a linguagem se torna complicada. Isso pode significar um forte desejo de desinformar. A desinformação ocorre quando não se tem nada de importante a dizer ou, sobretudo, quando se quer mascarar a realidade por intermédio das palavras.  



             


segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Ano I - número 6 - nov./dez. / 12: A gramática

TEXTO:   ANDRADE, Jorge.  Pedreira das almas.  O telescópio.

(Bié entra, vindo da cozinha; está sujo, com a roupa rasgada e o cabelo despenteado.)

FRANCISCO:  Ninguém vai carregar meus móveis!
RITA:  Ora, Francisco!
BIÉ:  Pai! O Argemiro tá querendo batê uma prosa com o senhor.
FRANCISCO:  Quantas vezes já disse para não falar assim?! Parece que tem prazer em ser atrasado. (Quase gritando.) Onde está o Argemiro?
BIÉ:  Deixei ele no curral.

(Francisco prepara-se para sair. Rita vai para a cozinha.)

FRANCISCO:  (A Bié.) Pegue a winchester e dê um jeito nos sanhaços. Estão acabando com as jabuticabas. (Raivoso.) Nunca vi passarinho mais daninho.
BIÉ:  Num dianta. Esses sanhaços sabe falá até franceis. Nunca vi tão veiacos.
FRANCISCO:  (Corrigindo.) Velhacos! Leve assim mesmo. Será sua obrigação de hoje em diante. Mas não quero que mate. Só para espantar. (Sai.)
BIÉ:  Dá na mesma, né Leila? Veiacos ou velhacos, eles estraga do mesmo jeito.
LEILA:  Adoro fazenda! (Subitamente.) Ainda existem as matas da "Vista Alegre"?
BIÉ:  (Surpreso.) Por que não havera de existir? Lá, ninguém põe a mão.
LEILA:  Assim que puder, vou ver a "Vista Alegre". Sempre achei o lugar mais bonito da fazenda. Tão repousante!
BIÉ:  Meus magrelo também gosta muito. É onde quero morá.
LEILA:  (Surpresa.) Na "Vista Alegre"?!
BIÉ:  É. Faço meu rancho no meio da mata e quero caçá até rachá o cano da espingarda.
LEILA:  (Mordaz.) Também, você não faz outra coisa: caçar, não é?
BIÉ:  Qualé o meu!
LEILA:  (Amável.) Não tem mau gosto. Acho a caça excitante, viril! (Olhando a cabeça de cervo pendurada na parede.) Nunca pude compreender como vovô conseguiu matar esse animal! Só de pensar em enfrentar um bicho desses ... me arrepio toda!
BIÉ:  Vovô era macho sacudido! Pegava a unha se era preciso!
LEILA:  Como você?!
BIÉ:  (Sorri.) Tar qual!
LEILA:  (Pequena pausa.) Bem! Se a "Vista Alegre" for minha, poderá caçar à vontade.
BIÉ:  (Lentamente, depois de passar a mão na cabeça do cervo.) Éééé! Mais num vai sê!
LEILA:  (Subitamente.) Quer me acompanhar? Tenho medo dos cachorros.
BIÉ:  (Sorri satisfeito.) Ah! meus magrelo são mordedô memo. (Bié sai pelo corredor. Leila vai ao espelho do cabide e se arruma. Bié volta com uma winchester.)


ANALISANDO O TEXTO
1.  A correção da forma "veiacos" para "velhacos" está ligada a uma parte da gramática chamada Fonologia, mais especificamente à ortoepia (ou ortoépia).
Formada por elementos gregos (orto = "correto"; epos = "palavra"), cuida da correta produção oral das palavras.
2.  Em " ... eles estraga do mesmo jeito", existe um problema de sintaxe. É um erro de concordância entre o sujeito e o verbo. A frase deveria ser "Eles estragam do mesmo jeito.".
3.  Em "por que não havera de existir?", o verbo "haver" deveria ter assumido a forma "houvera". A parte da gramática que se ocupa desse tipo de questão é a Morfologia.
4.  Como se pode notar, o texto coloca em contraste diferentes formas de emprego da língua portuguesa. E a passagem em que se evidencia o valor social atribuído a uma dessas formas é a seguinte: "Quantas vezes já disse para não falar assim?! Parece que tem prazer em ser atrasado." O pai considera a linguagem de seu filho "atrasada".
5.  "Dá na mesma, né Leila? Veiacos ou velhacos, eles estraga do mesmo jeito."
A passagem acima nos permite concluir que Bié não demonstra preocupações com a correção gramatical, mas com a realidade. Para ele, o mais importante é o que realmente acontece, e não a forma como se fala sobre o que acontece.
6.  Bié é um tipo literário. O seu modo de falar é fundamental para sua caracterização como menino de fazenda. Ainda mais em se tratando de um texto teatral, em que a linguagem da própria personagem se integra a outros detalhes de caracterização, como a indumentária, a postura e a mímica.
7.  As falas de Bié buscam reproduzir uma forma de língua que habitualmente não se representa por escrito. O autor do texto viu-se obrigado a improvisar essa representação escrita, conseguindo um resultado que, se é capaz de nos sugerir uma certa forma de falar, está muito longe de reproduzi-la fielmente. Tal questão não é simples, pois há uma dificuldade de se propor uma representação gráfica que possua correspondência com aquilo que efetivamente se fala. Se fosse possível essa representação, ela sofreria tantas variações quantas fossem as formas regionais de falar. Portanto, não seria viável abandonar a padronização ortográfica, substituindo-a pela reprodução escrita exata daquilo que falamos. A padronização, mesmo sendo trabalhosa, torna uniforme a forma escrita da língua.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Ano I - número 5 - set./out. / 12: A língua - texto 3

TEXTO:  BRISTON, J. H. & MILES, D. C.  Tecnologia dos polímeros.

Poliacrilatos e polimetacrilatos

         A história de laboratório dos monômeros acrílicos começou em 1843, quando da primeira síntese do ácido acrílico.
        A isto seguiu-se em 1865 a preparação do etil-metacrilato, por Frankland e Duppa, enquanto que em 1877 Fittig e Paul notavam que ele possuía uma certa tendência para polimerizar. Por volta de 1900, a maioria dos acrilatos mais comuns havia sido preparada em laboratório e ao mesmo tempo já existiam alguns trabalhos sobre a sua polimerização. Em 1901, o Dr. Rohm, na Alemanha, começou um estudo sistemático no campo dos acrílicos e mais tarde tomou parte ativa no desenvolvimento industrial dos polímeros do éster acrílico naquele país. O polimetilacrilato foi o primeiro polímero acrílico produzido industrialmente (por Rohm e Haas, em 1927). Foi vendido como uma solução do polímero em solvente orgânico e foi usado principalmente em lacas e formulações para revestimentos superficiais. Mais tarde, Rowland Hill (da I.C.I.) estudou o metilmetacrilato e sua polimerização em profundidade, enquanto que Crawford (também da I.C.I.) desenvolveu um método econômico para a fabricação do monômero.


ANALISANDO O TEXTO
1. A fim de que se consiga a compreensão perfeita do presente texto faz-se necessário conhecimento de química orgânica, isto é, um conhecimento técnico para compreender a linguagem técnica utilizada.
2. Concluindo a série de três textos, percebe-se como as variações lingüísticas podem decorrer de fatores geográficos, sociais e técnicos.

sábado, 21 de julho de 2012

Ano I - número 4 - jul./ago. / 12: A língua - texto 2

TEXTO: da Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988

CAPÍTULO III
Da Educação, da Cultura e
do Desporto
Seção I
Da Educação

         Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado  e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.
        Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:
        I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;
        II - liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber;
       III - pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino;
     IV - gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais;
        V - valorização dos profissionais do ensino, garantindo, na forma da lei, planos de carreira para o magistério público, com piso salarial profissional e ingresso exclusivamente por concurso público de provas e títulos, assegurado regime jurídico único para todas as instituições mantidas pela União;
       VI - gestão democrática do ensino público, na forma da lei;
         VII - garantia de padrão de qualidade.


ANALISANDO O TEXTO
O texto da nossa Constituição possui caráter oficial. Por isso, a forma de língua portuguesa empregada é a variedade culta. Essa forma de língua se liga estreitamente ao acesso à informação e à cultura consideradas superiores. O domínio da variedade culta se constitui pré-requisito para alcançar a plena cidadania.


sábado, 19 de maio de 2012

Ano I - número 3 - mai./jun. / 12 : A língua - texto 1

TEXTO: poema - autor: Patativa do Assaré
O poeta da roça

Sou fio das mata, cantô da mão grossa,
Trabaio na roça, de inverno e de estio.
A minha chupana é tapada de barro,
Só fumo cigarro de paia de mio.

Sou poeta das brenha, não faço o papé
De argum menestré, ou errante cantô
Que veve vagando, com sua viola,
Cantando, pachola, à percura de amô.

Não tenho sabença, pois nunca estudei,
Apenas eu sei o meu nome assiná.
Meu pai, coitadinho! vivia sem cobre,
E o fio do pobre não pode estudá.

Meu verso rastero, singelo e sem graça,
Não entra na praça, no rico salão, 
Meu verso só entra no campo e na roça
Nas pobre paioça, da serra ao sertão.

Só canto o buliço da vida apertada,
Da lida pesada, das roça e dos eito.
E às vez, recordando a feliz mocidade,
Canto uma sodade que mora em meu peito.

Eu canto o caboco com suas caçada,
Nas noite assombrada que tudo apavora,
Por dentro da mata, com tanta corage
Topando as visage chamada caipora.

Eu canto o vaquero vestido de coro,
Brigando com o toro no mato fechado,
Que pega na ponta do brabo novio,
Ganhando lugio do dono do gado.

Eu canto o mendigo de sujo farrapo,
Coberto de trapo e mochila na mão,
Que chora pedindo o socorro dos home,
E tomba de fome, sem casa e sem pão.

E assim, sem cobiça dos cofre luzente,
Eu vivo contente e feliz com a sorte,
Morando no campo, sem vê a cidade.
Cantando as verdade das coisa do Norte.


ANALISANDO O TEXTO
1. A língua é o principal código desenvolvido e utilizado pelos homens em sua vida social. Por isso, ela será transformada no centro de nosso interesse nesta série de três textos a ser apresentada. Três textos com três formas diferentes assumidas pela língua portuguesa.
2. A forma de língua utilizada neste primeiro texto imediatamente nos remete à realidade sertaneja. O poeta popular Patativa do Assaré optou conscientemente por essa forma, como bem o demonstra o texto.
3. Trata-se de uma poética, isto é, um texto que expõe as propostas de criação de um poeta. Por causa disso, a forma lingüística optada pelo artista se harmoniza com a temática de sua poesia. Ele escolheu abordar a realidade sertaneja, utilizando para tanto o falar do sertão. Concluímos que as formas regionais da língua podem produzir literatura de bom nível.
4. As formas "fio", "mio" e "paioça" (correspondentes, na língua culta, a "filho", "milho" e "palhoça", respectivamente) e os plurais "das mata", "das brenha", "das roça e dos eito", "dos home" devem ser considerados. Não são "erros" aleatórios. As diferenças entre essas formas e aquelas da língua culta possuem sua lógica própria. Na verdade, os denominados "erros" indicam mecanismos gramaticais distintos dos da forma culta. Tais mecanismos são coerentes. No caso, trata-se da eliminação sistemática de um determinado fonema ( representado pelo dígrafo consonantal lh) e da marca de plural no final dos substantivos, uma vez que o plural aparece nos artigos.