domingo, 21 de maio de 2017

Ano VI - número 33 - mai./jun. / 17: Estudo das conjunções (classe invariável) - texto 1

TEXTO:
Embora soneto

Vivo meu porém
No encontro do todavia
Sou mas.
Contudo
Encho-me de ainda
Na espera do quando
Desando ou desbundo.

Viver é apesar
Amar é a despeito
Ser é não obstante
Destarte
Sou outrossim
Ilusão, sem embargo
Malgrado senão.

(BARROS, Paulo Alberto M. Monteiro de Barros. (Artur da Távola) Calentura)


ANALISANDO O TEXTO
1. Soneto é uma forma poética fixa. "Embora soneto" pode ser interpretado como "ainda assim um soneto", em uma referência à forma do texto, que não corresponde à do soneto tradicional, ou como uma alusão à temática do texto, que é o constante conflito, o jogo de oposições permanente em que muitas circunstâncias da vida nos colocam.
2. "Contudo" é uma conjunção coordenativa adversativa.
3. As conjunções que aparecem no texto têm seu sentido ampliado pela forma como são utilizadas: "embora", "porém", "todavia", "mas", "quando", "apesar (de), "a despeito", "não obstante", "outrossim", "sem embargo", "malgrado", "senão". Essas conjunções assumem o sentido das suas relações costumeiras, indicando contraste, oposição e compensação.
4. Há constatações existenciais nos versos "Viver é apesar/ Amar é a despeito/ Ser é não obstante". As conjunções surgem com os sentidos de oposição, de adversidade e de compensação.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Ano VI - número 32 - mar./abr. / 17: Estudo das preposições (classe invariável) - texto 2

TEXTO: 
Indignação civil

         Talvez exista algo de quixotesco nas tentativas de refrear por meio de recursos jurídicos os casos mais evidentes de desperdício e de abuso que se registram no poder público brasileiro. Ações populares contra os gastos motivados pela viagem de Sarney a Paris, recursos contra o selo-pedágio e contra as injeções de dinheiro público em fundos de assistência privada não deixam, entretanto, de refletir um inconformismo diante de uma administração que se mostra incorrigível no desrespeito à opinião pública e que, esgotando-se na própria incapacidade de fazer frente ao processo inflacionário, tende a desmoralizar não só a si própria, como ao Estado brasileiro em seu conjunto.
         Sem uma constante vigilância da opinião pública, sem esse esforço quase desesperado de inconformismo, sem uma pressão cotidiana em defesa dos recursos do contribuinte, dificilmente será possível superar a crise atual; por remotas que sejam suas possibilidades de sucesso, tentativas desse tipo só podem despertar a simpatia da população.  (Folha de S. Paulo)


ANALISANDO O TEXTO
Entre as muitas preposições utilizadas no texto, duas se destacam como recurso enfático que o redator explora: "contra" e "sem". Um texto que trata de oposição a desmandos do governo e de instrumentos indispensáveis para combatê-los se constrói a partir da ênfase nas relações de oposição e privação, expressas através das preposições "contra" e "sem". 

domingo, 22 de janeiro de 2017

Ano VI - número 31 - jan./fev. / 17: Estudo das preposições (classe invariável) - texto 1

         No início do ano, o júbilo invade o BLOG PROF. STEFAN - LÍNGUA PORTUGUESA - TEXTOS, pois ocorre a comemoração de mais um aniversário e, desta vez, o quinto. Os seus privilegiados leitores, por sua vez, continuam aproveitando os preciosos ensinamentos dos fatos de nossa língua contidos em cada texto publicado.

TEXTO: 
Retrato

Sobre a mesa 
sob o tato
sem contato
com meus dedos,
não ligado
ao meu afeto:
seu retrato.

Não se perde 
numa concha
o mar
que nela
instilaram.
Seu retrato
sob o tato
não dos dedos
mas do afeto
perde
um pequeno
objeto
que se reflete
em abstrato:
meu silêncio
em seu retrato.

(CARLOS, Manoel.  Bicho alado.)


ANALISANDO O TEXTO
1. Nos quatro primeiros versos do poema, as preposições são exploradas sonora e semanticamente. A exploração sonora acontece sobretudo por causa do fonema inicial das três primeiras delas e do ritmo obtido pela sequência de versos curtos dos quais elas participam. Semanticamente, as preposições se dispõem em pares, formando antíteses: sobre/sob; sem/com.
2. No sexto verso do poema, há um fenômeno fonológico e gráfico. A preposição é a, da forma ao, que resulta da combinação entre a preposição e o artigo definido masculino o. Os termos por ela relacionados são o verbo ligado e o substantivo afeto.
3. No quarto verso da segunda estrofe, há a forma nela, que consiste na contração da preposição em com o pronome ela. Essa forma relaciona o pronome relativo que, que por sua vez se refere ao antecedente o mar, com a concha, estabelecendo uma relação de lugar. Desta forma: o mar - esse mesmo mar foi instilado numa concha - o mar não se perde nessa concha.
4. Nas expressões "em abstrato" e "em seu retrato", foram estabelecidas, respectivamente, as relações de modo e lugar.
5. O texto estabelece uma relação entre a concha (e o "mar que nela instilaram") e o retrato sobre a mesa (que "perde um pequeno objeto"). Essa aproximação (retrato/concha) se fundamenta em semelhanças e contrastes. Da mesma forma que uma concha carrega em si o mar que lhe foi instilado, o retrato carrega em si a imagem impressa. A concha é apresentada como preservadora do mar que carrega, enquanto o retrato permite escapar um pequeno objeto (o silêncio do observador, que é o eu lírico).   

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Ano V - número 30 - nov./dez. / 16: Estudo dos advérbios (classe invariável) - texto 2

TEXTO:
Culpa irradiada

         Cinco anos depois de uma cápsula com césio-137 radiativo ter sido exposta num ferro velho em Goiânia, matando quatro pessoas e causando lesões físicas em pelo menos 16, os responsáveis pelo incidente foram finalmente condenados pela Justiça.
         Apesar da morosidade excessiva do processo _ marca infelizmente tradicional do Judiciário brasileiro _, não deixa de ser digno de nota o fato de que não prevaleceu, desta vez, a impunidade tão corriqueira no país.
         Os acusados _ três sócios do instituto de onde o césio foi retirado e o técnico responsável _, a quem cumpria guardar o produto radiativo, foram condenados por homicídio e lesões corporais culposos.
         Embora ainda caiba recurso, merece destaque desde já a punição cominada pelo juiz. Em lugar de uma contraproducente sentença de prisão _ lamentavelmente comum mesmo para condenados que não oferecem risco social _, o magistrado optou pela prestação de serviços, tornando o cumprimento da pena útil, em vez de oneroso, para a comunidade.  (Folha de S. Paulo, 8/8/92.)


ANALISANDO O TEXTO
1. O texto se divide da seguinte forma: introdução: primeiro parágrafo; desenvolvimento: segundo e terceiro parágrafos; conclusão: quarto parágrafo.
2. Relendo com atenção o parágrafo introdutório, destaca-se o advérbio "finalmente". Ele não se limita a indicar uma circunstância de tempo no contexto em que ocorre. Pelo contrário, sua finalidade principal é indicar um julgamento de valor da parte do produtor do texto. Existe todo um mecanismo de pressuposição por trás dele. É como se afirmasse que "após todo esse tempo e toda a espera e sofrimento que se tiveram de suportar".
3. No segundo parágrafo, "infelizmente" não exprime circunstância de modo, e sim mais um julgamento de valor do produtor do texto.
4. Ainda no segundo parágrafo, o advérbio de intensidade que aparece é relevante para a argumentação. A palavrinha "tão" possui um significado muito importante para a argumentação textual porque introduz uma forte carga de conteúdos pressupostos. Se for retirada, ocorrerá a perda da noção de excesso transmitida por ela.
5. No último parágrafo, o advérbio "lamentavelmente" também não exprime circunstância de modo. Trata-se de outro advérbio de modo indicando avaliação subjetiva da parte do produtor do texto.
6. A utilização dos advérbios pode exprimir dados objetivos, importantes para que os ambientes e ações sejam caracterizados, ou dados subjetivos, que se referem à avaliação que o produtor do texto realiza a respeito dos fatos levantados.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Ano V - número 29 - set./out. / 16: Estudo dos advérbios (classe invariável) - texto 1

TEXTO:
Poema só para Jaime Ovalle

Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei, 
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...
_ Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.

(BANDEIRA, Manuel.  In: Poesia completa e prosa)


ANALISANDO O TEXTO
1. Os advérbios presentes no texto poético são os seguintes: hoje, ainda, já, então, depois, novamente, humildemente.
2. Os advérbios novamente e humildemente podem ser substituídos, respectivamente, pelas locuções adverbiais de novo e com humildade.
3. Os advérbios hoje e ainda (primeiro verso) indicam a circunstância de tempo.
4. O advérbio humildemente (último verso) expressa a circunstância de modo.
5. O antepenúltimo verso do poema ( "Bebi o café que eu mesmo preparei") revela a solidão do poeta. 

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Ano V - número 28 - jul./ago. / 16: Estudo dos verbos (III) (classe variável): valor e emprego das formas verbais - texto 3

TEXTO:
Soneto de separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.


(MORAES, Vinicius de. Poesia completa & Prosa)


ANALISANDO O TEXTO
No "Soneto de separação", é empregado apenas um único tempo verbal, o pretérito perfeito do indicativo. O tema do soneto se relaciona com o valor desse tempo verbal, que é próprio para exprimir processos ocorridos e concluídos no passado. Essas noções se ligam perfeitamente à ideia da separação, do rompimento entre um momento passado e o presente.

domingo, 22 de maio de 2016

Ano V - número 27 - mai./jun. / 16: Estudo dos verbos (III) (classe variável): valor e emprego das formas verbais - texto 2

TEXTO:
Pena de morte

         Cada aplicação da pena capital nos EUA ressalta o paradoxo entre uma sociedade tida como das mais democráticas do planeta e a preservação de um instituto marcadamente brutal e incivilizado. Com a morte de um prisioneiro anteontem na Califórnia, subiu para 167 o número de execuções nos EUA desde 1976, data da reimplantação da pena de morte.
            Mais importante do que sublinhar a crueldade do método utilizado _ a câmara de gás _ é repisar os argumentos contrários a esse tipo de sanção. E eles são vários. Ao aplicar a pena de morte, o Estado desce à mesma condição aviltante do delinquente responsável por um ato hediondo. Pior, correndo o sério risco de cometer uma injustiça fruto de falhas processuais, as quais ficam sem possibilidade de reparação.
         Nem sequer como medida exemplar o dispositivo pode ser justificado. São inúmeros os estudos a mostrar que a aplicação da pena de morte não diminui a criminalidade. Na medida em que toda sanção tem como um de seus objetivos coibir a reprodução de comportamentos antissociais, só esta constatação bastaria para desautorizar o uso de método tão bárbaro e sinistro.
         O direito moderno dispõe de meios de dissuasão muito mais eficazes e contundentes para combater a delinquência, sem precisar recorrer a procedimentos que atentam contra a inviolabilidade da vida humana. Por tudo isso, é extremamente lamentável que num país como os EUA os emocionalismos prevaleçam sobre os argumentos da razão.  (Folha de S. Paulo, 23/4/92.)

ANALISANDO O TEXTO
1. O valor do uso do presente do indicativo na primeira frase do texto é indicar processo de efeito já tornado habitual, de validade permanente. Essa frase apresenta o tema a partir de fato efetivamente ocorrido e já indica o tratamento que será dado a esse tema (o texto argumentará contra a pena de morte).
2. O tempo verbal que predomina no segundo parágrafo é o presente do indicativo (é, são, desce, ficam). Em todas as ocorrências, ele indica processos continuados, fatos de validade permanente.
3. A primeira frase do segundo parágrafo apresenta dois argumentos: a crueldade do método utilizado e os vários argumentos contrários a esse tipo de sanção. Esses argumentos são apresentados pela estrutura argumentativa "mais importante do que... é...", que, além de possibilitar a exposição simultânea de dois argumentos, permite hierarquizá-los, destacando o segundo deles. Observe que a partir do segundo membro dessa estrutura o parágrafo continua a se desenvolver.
4. O valor da expressão "nem sequer" na argumentação é atuar como elemento indicador de pressuposições, isto é, introduzir no texto um dado da realidade que se pode considerar conhecido pelos interlocutores mesmo sem ter sido citado anteriormente. Dessa maneira, o produtor do texto se adianta aos que defendem posição contrária à sua, atacando um de seus argumentos antes mesmo de ele ser posto. Além disso, a expressão possui valor de exclusão completa. É como dizer que "nem para isso serve tal coisa".
5. O tempo verbal predominante no último parágrafo do texto é novamente o presente do indicativo (dispõe, atentam, é). A seu lado, aparece o presente do subjuntivo (prevaleçam). O primeiro tempo expressa processos de validade permanente. Já o segundo aparece em uma oração subordinada, cuja oração principal apresenta o verbo no presente do indicativo.
6. Os tempos verbais que predominam no texto são: presente do indicativo, presente do subjuntivo e futuro do presente do indicativo. O texto em questão é dissertativo e os tempos predominantes são adequados para esse tipo de texto na língua portuguesa.