segunda-feira, 13 de julho de 2015

Ano IV - número 22 - jul./ago. / 15: Estudo dos pronomes (classe variável) - texto 2

TEXTO:
Os meninos do Brasil
Clóvis Rossi

         SÃO PAULO - Primeiro, foi o "arrastão" nas praias do Rio. Logo depois, nas praias de Fortaleza. Um pouco mais adiante, na festa do Círio de Nazaré, em Belém do Pará. Desceu, em seguida, para a praça da Sé em São Paulo. Chegou ontem a Londrina, no norte do Paraná, cidade em que uma dúzia de lojas foi "arrastada" por bandos de menores movidos a cola de sapateiro.
          Vê-se que já não dá sequer para o tolo conformismo de achar que essa espécie de guerrilha urbana está restrita aos grandes centros, depósitos habituais de todos os problemas do subdesenvolvimento. Londrina parece ser apenas uma dessas cidades médias abençoadas pela alta qualidade de vida interiorana.
          É evidente que deve haver, nessa onda de "arrastões", um pouco de modismo. O pessoal vê pela televisão um grupo "arrepiando bacanas" no Rio de Janeiro e resolve fazer a mesma coisa na sua própria cidade. Copiar comportamentos alheios, muito divulgados pela mídia, é um fenômeno até certo ponto corriqueiro.
         O problema é que a matéria-prima para a repetição dos "arrastões" sobra no país. O Brasil, que sempre foi exemplo extremo de má distribuição de renda, tornou-se selvagem nestes muitos anos de estagnação econômica. Se há alguma indústria nacional que não sofre os efeitos da recessão é a fábrica de produzir miseráveis e marginalizados. Da marginalização à marginalidade e dela à brutalidade, a distância costuma ser curta.
        Conseqüência inevitável; os "bacanas" já estão todos arrepiados. Pior: tornam-se cada vez mais inúteis os discursos sobre a miséria, sobre a infância desamparada, sobre as injustiças sociais. A fábrica de produzir retórica sobre essa temática é, aliás, outro setor que não entrou em recessão.
         Seria altamente conveniente que admitíssemos de uma vez por todas que estamos, todos, desequipados para agir, em vez de discursar a respeito. Não é um problema que se possa resolver apenas por meio do poder público. Não é um problema que a filantropia de meia dúzia vá sequer atenuar. É uma guerra. Não serve de consolo saber que produziu poucas vítimas fisicamente até agora. Todo o país é vítima quando seus "bacanas" começam a odiar os meninos do Brasil.  (Folha de S. Paulo, 30/10/92.)

ANALISANDO O TEXTO
1. O relacionamento entre o primeiro e o segundo parágrafos do texto é em grande parte estabelecido pelo pronome demonstrativo "essa", da expressão "essa espécie de guerrilha urbana". Esse demonstrativo de segunda pessoa se refere a todo o contido no parágrafo anterior, por ele retomado e resumido a seguir na expressão "guerrilha urbana".
2. Na passagem "Londrina parecia ser apenas uma dessas cidades médias abençoadas pela alta qualidade de vida interiorana.", o sentido do pronome demonstrativo destacado é de valor indefinido, ou seja, uma das várias cidades.
3. O relacionamento entre o terceiro parágrafo e os anteriores é realizado sobretudo através de dois pronomes demonstrativos. São eles: "essa", da expressão "nessa onda de arrastões", e "mesma", da expressão "fazer a mesma coisa". Ambos se remetem à "guerrilha urbana", citada anteriormente.
4. No trecho "O Brasil, que sempre foi exemplo extremo de má distribuição de renda, tornou-se selvagem nestes muitos anos de estagnação econômica.", os pronomes destacados possuem a seguinte classificação: que: pronome substantivo relativo; se: pronome substantivo pessoal; estes: pronome adjetivo demonstrativo. Os pronomes que e se estabelecem relações: que substitui e retoma seu antecedente o Brasil na oração subordinada adjetiva encabeçada por ele; se já é parte integrante do verbo pronominal "tornar-se". Estes indica os anos mais próximos, mais recentes. É um caso típico de demonstrativo de primeira pessoa se referindo ao tempo presente.
5. "Se há alguma indústria nacional que não sofre os efeitos da recessão é a fábrica de produzir miseráveis e marginalizados." Os pronomes em destaque se classificam da seguinte forma: alguma: pronome adjetivo indefinido; que: pronome substantivo relativo. Que substitui e retoma seu antecedente indústria nacional na oração subordinada adjetiva que encabeça. Alguma possui o valor de uma certa, uma determinada. A frase apresenta ironia porque sua construção enfatiza o fato de que o país está em recessão e, ainda assim, essa "indústria" progride.
6. "Da marginalização à marginalidade e dela à brutalidade, a distância costuma ser curta." O pronome ela é classificado como pronome substantivo pessoal e substitui o vocábulo "marginalidade", evitando sua repetição e participando da criação de um encadeamento de causas e efeitos no texto. Esse pronome poderia ser substituído pelo pronome demonstrativo esta. Nesse caso, o pronome de primeira pessoa seria necessário para evitar dúvida quanto ao vocábulo substituído, o que poderia acontecer se fosse usado o pronome de segunda pessoa esse.
7. Nos dois últimos parágrafos, as conclusões a que chega o articulista são expostas. São utilizados neles diversos pronomes indefinidos: todos arrepiados, cada vez mais, outro setor, de uma vez por todas, todos, poucas, todo o país. O predomínio da forma todo e flexões assinala a busca de universalidade das conclusões expostas, pois tais pronomes expressam inclusão total.          

domingo, 17 de maio de 2015

Ano IV - número 21 - mai./jun. / 15: Estudo dos pronomes (classe variável) - texto 1

TEXTO:
-Me
  1. Gargal(h)o de mim
  2. Lúcido-me tolo.
  3. Olhos de análise, tudo sei
  4. Menos o mim. Desminto-me.
  5. Me mito ou me mato
  6. Em suor e de lírio
  7. Não sei se sei, se sou ou suo.
  8. Cego, só ego sou
  9. Cogito ergo sum.
  10. Inciente de mim
  11. Não posso verme.
  12. Imparcial, petulante,
  13. Soslaio-me, infrutífero
  14. E fero, voraz, implacável,
  15. Tombo, incapaz-me 
  16. Delirante luz.
(BARROS, Paulo Alberto M. Monteiro de (Artur da Távola). Calentura)


ANALISANDO O TEXTO
1. "Me" e "mim" são pronomes oblíquos. Porém, possuem diferenças e semelhanças entre si: "me" é pronome átono, isto é, não tem tonicidade própria; portanto, nas frases, apóia-se em outra palavra, geralmente um verbo (daí a questão da colocação pronominal). "Mim" é pronome tônico, introduzido sempre por uma preposição essencial. Sintaticamente, ambos desempenham as mesmas funções.
2. O verso 1, "Gargal(h)o de mim" pode ser lido de duas maneiras: "gargalo de mim" e "gargalho de mim". "Gargalo" sugere "constrangimento", "passagem forçada"; o eu lírico constrange-se, submete-se a situações difíceis e, simultaneamente, ri (gargalha) de si mesmo, não levando a sério a si próprio.
3. O poema explora seguidamente a possibilidade de se ler determinadas seqüências de mais de uma maneira. "Em suor e de lírio" (verso 6): da flor com esse nome ou "delírio", êxtase; "Não posso verme." (verso 11): "verme" (substantivo) ou "ver-me" (verbo + pronome); "Delirante luz." (verso 16): adjetivo que se refere a delírio ou "delir ante" (verbo + preposição).
4. O poema também transforma freqüentemente palavras de outras classes gramaticais em verbos. Eis as ocorrências: "Lúcido-me" (verso 2); "Me mito" (verso 5); "Soslaio-me" (verso 13); "Incapaz-me" (verso 15). Em todos esses casos, o verbo aparece por causa da aproximação do pronome oblíquo "me", que adquire valor de objeto.
5. Sem sombra de dúvida, o poema constitui a expressão de um conflito interior, em que duas tendências se chocam: a tendência da supervalorização pessoal e a tendência do menosprezo pessoal. Com esse sentido, o título do poema é muito significativo e expressivo porque aponta a situação de objeto de si mesmo a que o eu lírico se submete.    










   

sábado, 21 de março de 2015

Ano IV - número 20 - mar./abr. / 15: Estudo dos numerais (classe variável)

TEXTO: 
Crenças primitivas
Marcelo Coelho

         SÃO PAULO - O bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, sai sem dúvida fortalecido depois de 11 dias na prisão. Sua foto atrás das grades, lendo a Bíblia, não poderia deixar de ser vista por seus adeptos como uma espécie de martírio religioso; sabe-se, ademais, que as crenças e seus líderes ganham popularidade quando perseguidos pela lei.
     As acusações que pesam sobre Macedo _ charlatanismo, curandeirismo e estelionato _ terão ainda de ser examinadas pela Justiça. O processo envolve questões complexas, como a da liberdade de religião, e a de em que os métodos utilizados pelo bispo para angariar seus fundos diferem dos de outros cultos.
        Há, entretanto, dois aspectos neste episódio que transcendem o julgamento que se faça sobre as atividades de Edir Macedo. O primeiro é o da crescente demanda por todas as formas de crença que prometem alívio prático para as mazelas da existência, sem sutilezas teológicas; curas e milagres, em pleno final do século 20, são procurados sofregamente, paga-se por isso, e religiões mais cautelosas na mistificação tendem a perder adeptos. O fato pode ser desalentador, mas é dificilmente evitável.
        O segundo aspecto é o de que, na prisão de Edir Macedo, transparece um desejo bastante generalizado nos dias que correm: o de ver pessoas famosas na cadeia. A impunidade geral como que atiça a opinião pública para ver alguém importante literalmente atrás das grades. Como as execuções públicas no século passado, a prisão é hoje uma espécie de espetáculo. Ainda que a idéia da privação de liberdade seja em muitos casos considerada anacrônica do ponto de vista penal, são muitos os que lamentam, sem dúvida, o fato de esse espetáculo ser tão raro no Brasil. E tanto a crença em curas milagrosas quanto o fascínio que a idéia de cadeia exerce na população _ para nada dizer da pena de morte _ talvez derivem de um mesmo primitivismo ideológico.  (Folha de S. Paulo, 6/6/92.)

ANALISANDO O TEXTO
1. Os dois primeiros parágrafos, no conjunto do texto, possuem a função de apresentar o fato do qual o texto irá extrair suas considerações. Esse fato é a prisão do bispo Edir Macedo.
2. O terceiro parágrafo muda o encaminhamento dos dados apresentados nos dois parágrafos anteriores, pois deixa de atentar na prisão do bispo para centralizar-se nas implicações que podem ser tiradas de tal fato.
3. O numeral dois, no começo do terceiro parágrafo, relaciona-se com os numerais "primeiro" e "segundo". Esses numerais são muito importantes para a organização do texto. Observe que o cardinal indica a quantidade de implicações tiradas do fato apresentado inicialmente, enquanto os ordinais organizam a seqüência dessas implicações no desenvolvimento textual.
4. Os numerais ordinais utilizados no terceiro e quarto parágrafos poderiam muito bem ser substituídos por pronomes indefinidos. Pode-se empregar no lugar dos numerais um par de pronomes indefinidos, como "um (dos aspectos), outro (aspecto)".
5. O texto trata do grau de indigência social do Brasil, cuja população se apega a soluções milagrosas para o alívio de seus problemas. Uma nação pode ser construída a partir da consciência coletiva de que, ao invés dos milagres e da crença em métodos punitivos, o trabalho e a solidariedade são formas de se encaminhar a solução dos problemas sociais. 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Ano IV - número 19 - jan./fev. / 15: Estudo dos artigos (classe variável)

         Em cada início de ano, o clima é de festa e de euforia, pois o BLOG PROF. STEFAN - LÍNGUA PORTUGUESA - TEXTOS recorda a sua origem. Assim sendo, divide com os seus internautas leitores as alegrias do seu terceiro aniversário e os conhecimentos precisos dos fatos de nosso idioma através dos mais variados textos.

TEXTO: letra de música - composição em parceria de Chico Buarque & Milton Nascimento 

 Leo 
  1. Um pé na soleira
  2. e um pé na calçada,
  3. um pião.
  4. Um passo na estrada
  5. e um pulo no mato,
  6. um pedaço de pau.
  7. Um pé de sapato
  8. e um pé de moleque.
  9. Leo ...
  10. Um pé de moleque
  11. e um rabo de saia,
  12. um serão.
  13. As sombras da praia
  14. e o sonho na esteira,
  15. uma alucinação.
  16. Uma companheira
  17. e um filho no mundo.
  18. Leo ...
  19. Um filho no mundo
  20. e um mundo virado,
  21. um irmão.
  22. Um livro, um recado,
  23. uma eterna viagem,
  24. a mala de mão.
  25. A cara, a coragem
  26. e um plano de vôo.
  27. Leo ...
  28. Um plano de vôo
  29. e um segredo na boca,
  30. um ideal.
  31. Um bicho na toca
  32. e o perigo por perto,
  33. uma pedra, um punhal.
  34. Um olho desperto 
  35. e um olho vazado.
  36. Leo ...
  37. Um olho vazado
  38. e um tempo de guerra,
  39. um paiol.
  40. Um nome na serra
  41. e um nome no muro,
  42. a quebrada do sol.
  43. Um tiro no escuro
  44. e um corpo na lama.
  45. Leo ...
  46. Um nome na lama
  47. e um silêncio profundo,
  48. um pião.
  49. Um filho no mundo
  50. e uma atiradeira,
  51. um pedaço de pau.
  52. Um pé na soleira 
  53. e um pé na calçada.
ANALISANDO O TEXTO
1. Pode-se considerar Leo uma biografia. Cada momento da vida corresponde a uma determinada parte do texto: Infância: linha 1 até l. 8; adolescência/descoberta do amor: l. 10 até l. 17; busca de um lugar para viver: l. 19 até l. 26; busca da satisfação de um ideal e início da tragédia pessoal: l. 28 até l. 35; luta e morte: l. 37 até l. 44; continuidade no filho: l. 46 até l. 53.
2. O texto apresenta imagens que traduzem o idealismo da personagem Leo: "A cara, a coragem/e um plano de vôo" (linhas 25/26); "Um plano de vôo/e um segredo na boca,/um ideal" (linhas 28 a 30); "Um livro, um recado,/uma eterna viagem,/a mala de mão" (linhas 22 a 24).
3. Leo teve um destino trágico. O texto refere que ele morreu assassinado por um tiro. As circunstâncias dessa morte recordam a época da guerrilha no Brasil.
4. No texto, é estabelecida uma relação entre o destino do pai e o destino do filho. O destino do filho é retomar e continuar a vida do pai a partir do ponto em que ela foi interrompida. O texto indica isso através do recurso formal da repetição de imagens atribuídas inicialmente ao pai (logo no início da canção) e agora, ao filho. Instaura-se, dessa forma, o percurso cíclico das gerações.
5. A predominância forte do artigo indefinido cria um método de narrar muito sugestivo: são os dados da vida de Leo, comuns a todos os outros semelhantes, que acabam por formar um conjunto único, pessoal. Observe que das generalidades encadeadas se obtém chegar ao particular.    

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Ano III - número 18 - nov./dez. / 14: Estudo dos adjetivos (classe variável) - texto 2

TEXTO:
A pedra
  1. A pedra é bela, opaca,
  2. peso-a gostosamente como um pão.
  3. É escura, baça, terrosa, avermelhada,
  4. polvilhada de cinza.
  5. Contemplo-a: é evidente, impenetrável, 
  6. preciosa. 

     (Antônio Ramos Rosa)


ANALISANDO O TEXTO
1. A adjetivação dos quatro primeiros versos cumpre um papel diferente do que é exercido pela adjetivação dos dois últimos versos. A adjetivação dos quatro primeiros versos indica os aspectos físicos do objeto, atuando com finalidades descritivas: "opaca", "escura", "baça", "terrosa", "avermelhada", "polvilhada de cinza" fazem a descrição da pedra. Porém, há uma exceção: o adjetivo "bela", que traz uma certa subjetividade. Já os adjetivos "evidente", "impenetrável" e "preciosa" indicam a subjetividade do eu lírico, que revela os sentimentos despertados pela contemplação da pedra. Detalhe: o último adjetivo, "preciosa", é capaz de causar uma ambigüidade no poema. Não parece indicar que a pedra possua alto valor comercial, mas que se tornou rica sob o olhar de quem a contempla por suas qualidades.
2. O eu lírico consegue transformar um elemento do mundo físico num elemento repleto de humanidade através da evolução nítida da adjetivação do texto. Esta passa claramente da caracterização física para a caracterização psicológica. Assim, o texto demonstra como os dados do mundo que nos rodeiam adquirem sentidos devido à ação de nossa sensibilidade a respeito deles.  
 

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Ano III - número 17 - set./out. / 14: Estudo dos adjetivos (classe variável) - texto 1

TEXTO:
Extermínio também é brincadeira
Gilberto Dimenstein

         BRASÍLIA - A imprensa revelou ontem uma nova "brincadeira" inventada por crianças numa escola do Rio. O nome da brincadeira: "extermínio". No intervalo, escolhem um menino pequeno a ser submetido a uma sessão de pancadaria. Na quarta-feira passada, um garoto de sete anos, uma das vítimas, foi levado pela mãe direto ao Hospital da Lagoa. Estava com o corpo repleto de hematomas.
            O terrível da notícia não é apenas o garoto cheio de hematomas, mas como a violência vai-se incorporando ao cotidiano, capaz de virar brincadeira. A banalização da violência é, hoje, a principal questão política brasileira _ interessa mais à população do que a reforma ministerial ou a composições no Congresso. Está em jogo a eficácia do Estado de Direito democrático. Está em jogo também direito à vida. Em certas áreas, o direito de ir e vir é uma ficção. Quem vai pode não voltar.
         Daí ser absolutamente espantosa a reação de Leonel Brizola à entrevista do ministro Célio Borja. O ministro comparou o Rio a Beirute no auge da guerra. Brizola preferiu, entretanto, fazer uma competição. Disse que São Paulo era pior _ portanto é, concluiu com a precisão de engenheiro, uma "Beirute e meia". Só a indigência pode explicar a comparação macabra. O governador parece mais preocupado com a estatística do que com a violência.
      Tanto faz se o assassinato é no Rio, São Paulo, Paraná. A degradação é nacional. Quando crianças inventam brincadeiras como "extermínio", a vergonha não é do carioca, mas do brasileiro. Quando os governadores Luiz Antônio Fleury Filho e Leonel Brizola ficam competindo para saber quem administra o Estado menos violento, a vergonha não é do Rio ou São Paulo _ é de todos nós.
             Essa medíocre disputa não ajuda ninguém. Ambos, na realidade, deveriam estudar, juntos, mecanismos de colaboração, já que os marginais não são bairristas _ assaltam e matam em qualquer lugar. Será mais civilizado e inteligente que eles se comovam mais com o menino de sete anos cheio de hematomas do que com as estatísticas de uma competição inútil.  (Folha de S. Paulo, 24/4/92.)


ANALISANDO O TEXTO
1. Os dois primeiros parágrafos introduzem e delimitam o assunto do texto: a banalização da violência no cotidiano brasileiro. O texto chega a esse assunto depois de, no primeiro parágrafo, apresentar a nova brincadeira das crianças de uma escola da cidade do Rio de Janeiro. O segundo parágrafo faz um comentário dessa brincadeira, definindo, assim, o tema do texto.
2. A palavra daí, no começo do terceiro parágrafo, estabelece uma relação entre o conteúdo dos dois primeiros parágrafos (a exposição da nova brincadeira infantil e a constatação da banalização da violência) com dados novos: as palavras do então governador do estado do Rio de Janeiro em resposta a comentários do então ministro da Justiça. A relação estabelecida é de causa e conseqüência entre as informações iniciais sobre a violência e o espanto provocado pelas declarações do governador.
3. O quarto e o quinto parágrafos expõem a conclusão a que o texto chega: em lugar de disputas estatísticas, os governadores dos estados do Rio e de São Paulo deveriam esforçar-se para combater a violência _ banalizada e interestadual. Ao expor essa conclusão, o texto retoma a brincadeira infantil inicial, particularmente a vítima dela, e a relaciona com os governadores.
4. Com certeza, o título do texto é irônico, pois, além de se referir à nova brincadeira infantil, indica que o extermínio real, banalizado na existência cotidiana, tem sido tratado com muito pouca seriedade por aqueles que deveriam tentar diminuí-lo.
5. Existe diferença de significado entre as formas "a terrível notícia" e "o terrível da notícia". A segunda forma realça a qualidade, o atributo, e não o ente qualificado.
6. No terceiro parágrafo, o adjetivo "espantosa" se encontra no grau superlativo analítico, formado pela utilização do advérbio de intensidade "absolutamente".
7. O adjetivo "pior", também no terceiro parágrafo, encontra-se no grau comparativo de superioridade porque compara os estados do Rio de Janeiro e de São Paulo _ o segundo é descrito como mais violento nessa passagem. "Pior" significa "mais mau". Portanto, é comparativo de superioridade.
8. No quarto parágrafo, o adjetivo "violento" está no grau comparativo de inferioridade. Os dois estados já citados são comparados novamente.
9. No último parágrafo, o produtor do texto emprega uma adjetivação: "medíocre", "juntos", "bairristas", "civilizado", "inteligente", "inútil". A maior parte desses adjetivos, sobretudo os mais "fortes", indicam julgamentos do autor do texto a respeito dos fatos por ele apontados. Provavelmente os governantes mencionados não considerem sua disputa medíocre ou inútil, por exemplo. 

sábado, 19 de julho de 2014

Ano III - número 16 - jul./ago. / 14: Estudo dos substantivos (classe variável) - texto 2

TEXTO: 
Circuito fechado (1)

         Chinelos, vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. Escova, creme dental, água, espuma, creme de barbear, pincel, espuma, gilete, água, cortina, sabonete, água fria, água quente, toalha. Creme para cabelo, pente. Cueca, camisa, abotoaduras, calça, meias, sapatos, gravata, paletó. Carteira, níqueis, documentos, caneta, chaves, lenço, relógio, maço de cigarros, caixa de fósforos. Jornal. Mesa, cadeiras, xícara e pires, prato, bule, talheres, guardanapo. Quadros. Pasta, carro. Cigarro, fósforo. Mesa e poltrona, cadeira, cinzeiro, papéis, telefone, agenda, copo com lápis, canetas, bloco de notas, espátula, pastas, caixas de entrada, de saída, vaso com plantas, quadros, papéis, cigarro, fósforo. Bandeja, xícara pequena. Cigarro e fósforo. Papéis, telefone, relatórios, cartas, notas, vales, cheques, memorandos, bilhetes, telefone, papéis. Relógio. Mesa, cavalete, cinzeiros, cadeiras, esboços de anúncios, fotos, cigarro, fósforo, bloco de papel, caneta, projetor de filmes, xícara, cartaz, lápis, cigarro, fósforo, quadro-negro, giz, papel. Mictório, pia, água. Táxi. Mesa, toalha, cadeiras, copos, pratos, talheres, garrafa, guardanapo, xícara. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Escova de dentes, pasta, água. Mesa e poltrona, papéis, telefone, revista, copo de papel, cigarro, fósforo, telefone interno, externo, papéis, prova de anúncio, caneta e papel, relógio, papel, pasta, cigarro, fósforo, papel e caneta, telefone, caneta e papel, telefone, papéis, folheto, xícara, jornal, cigarro, fósforo, papel e caneta. Carro. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Paletó, gravata. Poltrona, copo, revista. Quadros. Mesa, cadeiras, pratos, talheres, copos, guardanapos. Xícaras. Cigarro e fósforo. Poltrona, livro. Cigarro e fósforo. Televisor, poltrona. Cigarro e fósforo. Abotoaduras, camisa, sapatos, meias, calça, cueca, pijama, chinelos. Vaso, descarga, pia, água, escova, creme dental, espuma, água. Chinelos. Coberta, cama, travesseiro.  
(Ricardo Ramos, Circuito fechado)


ANALISANDO O TEXTO
1. "Circuito fechado" consiste em uma história que nos é contada, explorando a característica essencial dos substantivos, que é a função de nomear os seres e dados da nossa realidade. A história é contada através da enumeração de seres que mantêm entre si um sentido que o leitor consegue captar. Por meio desse sentido, o leitor constrói a história que está sendo contada.
2. O texto nos conta a história de um típico dia na existência de um homem que trabalha numa agência de publicidade, desde o despertar até o anoitecer. A relação entre essa história e o título do texto está no circuito que é fechado porque se repete invariavelmente todo dia.
3. A personagem apresentada pelo texto possui as seguintes características: trata-se de um homem que trabalha num escritório ou agência de publicidade. Esse dado, somado a outros, como a posse de um carro e de um televisor e o uso de determinados trajes, permite-nos localizá-lo socialmente: principalmente é um homem solitário, cuja vida se encontra amarrada a uma rotina que o angustia.
4. Neste texto, não se notam praticamente substantivos abstratos. Tal fato nos permite concluir que a história é contada pela enumeração dos objetos com que a personagem do texto entra em contato durante o dia. Daí a ausência de substantivos abstratos, que estariam ligados a dados do mundo psicológico não mencionados de modo explícito no texto.
5. Sugestão: Experimente contar um dia típico de sua vida, utilizando o mesmo processo usado neste texto.