sábado, 21 de março de 2015

Ano IV - número 20 - mar./abr. / 15: Estudo dos numerais (classe variável)

TEXTO: 
Crenças primitivas
Marcelo Coelho

         SÃO PAULO - O bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, sai sem dúvida fortalecido depois de 11 dias na prisão. Sua foto atrás das grades, lendo a Bíblia, não poderia deixar de ser vista por seus adeptos como uma espécie de martírio religioso; sabe-se, ademais, que as crenças e seus líderes ganham popularidade quando perseguidos pela lei.
     As acusações que pesam sobre Macedo _ charlatanismo, curandeirismo e estelionato _ terão ainda de ser examinadas pela Justiça. O processo envolve questões complexas, como a da liberdade de religião, e a de em que os métodos utilizados pelo bispo para angariar seus fundos diferem dos de outros cultos.
        Há, entretanto, dois aspectos neste episódio que transcendem o julgamento que se faça sobre as atividades de Edir Macedo. O primeiro é o da crescente demanda por todas as formas de crença que prometem alívio prático para as mazelas da existência, sem sutilezas teológicas; curas e milagres, em pleno final do século 20, são procurados sofregamente, paga-se por isso, e religiões mais cautelosas na mistificação tendem a perder adeptos. O fato pode ser desalentador, mas é dificilmente evitável.
        O segundo aspecto é o de que, na prisão de Edir Macedo, transparece um desejo bastante generalizado nos dias que correm: o de ver pessoas famosas na cadeia. A impunidade geral como que atiça a opinião pública para ver alguém importante literalmente atrás das grades. Como as execuções públicas no século passado, a prisão é hoje uma espécie de espetáculo. Ainda que a idéia da privação de liberdade seja em muitos casos considerada anacrônica do ponto de vista penal, são muitos os que lamentam, sem dúvida, o fato de esse espetáculo ser tão raro no Brasil. E tanto a crença em curas milagrosas quanto o fascínio que a idéia de cadeia exerce na população _ para nada dizer da pena de morte _ talvez derivem de um mesmo primitivismo ideológico.  (Folha de S. Paulo, 6/6/92.)

ANALISANDO O TEXTO
1. Os dois primeiros parágrafos, no conjunto do texto, possuem a função de apresentar o fato do qual o texto irá extrair suas considerações. Esse fato é a prisão do bispo Edir Macedo.
2. O terceiro parágrafo muda o encaminhamento dos dados apresentados nos dois parágrafos anteriores, pois deixa de atentar na prisão do bispo para centralizar-se nas implicações que podem ser tiradas de tal fato.
3. O numeral dois, no começo do terceiro parágrafo, relaciona-se com os numerais "primeiro" e "segundo". Esses numerais são muito importantes para a organização do texto. Observe que o cardinal indica a quantidade de implicações tiradas do fato apresentado inicialmente, enquanto os ordinais organizam a seqüência dessas implicações no desenvolvimento textual.
4. Os numerais ordinais utilizados no terceiro e quarto parágrafos poderiam muito bem ser substituídos por pronomes indefinidos. Pode-se empregar no lugar dos numerais um par de pronomes indefinidos, como "um (dos aspectos), outro (aspecto)".
5. O texto trata do grau de indigência social do Brasil, cuja população se apega a soluções milagrosas para o alívio de seus problemas. Uma nação pode ser construída a partir da consciência coletiva de que, ao invés dos milagres e da crença em métodos punitivos, o trabalho e a solidariedade são formas de se encaminhar a solução dos problemas sociais. 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Ano IV - número 19 - jan./fev. / 15: Estudo dos artigos (classe variável)

         Em cada início de ano, o clima é de festa e de euforia, pois o BLOG PROF. STEFAN - LÍNGUA PORTUGUESA - TEXTOS recorda a sua origem. Assim sendo, divide com os seus internautas leitores as alegrias do seu terceiro aniversário e os conhecimentos precisos dos fatos de nosso idioma através dos mais variados textos.

TEXTO: letra de música - composição em parceria de Chico Buarque & Milton Nascimento 

 Leo 
  1. Um pé na soleira
  2. e um pé na calçada,
  3. um pião.
  4. Um passo na estrada
  5. e um pulo no mato,
  6. um pedaço de pau.
  7. Um pé de sapato
  8. e um pé de moleque.
  9. Leo ...
  10. Um pé de moleque
  11. e um rabo de saia,
  12. um serão.
  13. As sombras da praia
  14. e o sonho na esteira,
  15. uma alucinação.
  16. Uma companheira
  17. e um filho no mundo.
  18. Leo ...
  19. Um filho no mundo
  20. e um mundo virado,
  21. um irmão.
  22. Um livro, um recado,
  23. uma eterna viagem,
  24. a mala de mão.
  25. A cara, a coragem
  26. e um plano de vôo.
  27. Leo ...
  28. Um plano de vôo
  29. e um segredo na boca,
  30. um ideal.
  31. Um bicho na toca
  32. e o perigo por perto,
  33. uma pedra, um punhal.
  34. Um olho desperto 
  35. e um olho vazado.
  36. Leo ...
  37. Um olho vazado
  38. e um tempo de guerra,
  39. um paiol.
  40. Um nome na serra
  41. e um nome no muro,
  42. a quebrada do sol.
  43. Um tiro no escuro
  44. e um corpo na lama.
  45. Leo ...
  46. Um nome na lama
  47. e um silêncio profundo,
  48. um pião.
  49. Um filho no mundo
  50. e uma atiradeira,
  51. um pedaço de pau.
  52. Um pé na soleira 
  53. e um pé na calçada.
ANALISANDO O TEXTO
1. Pode-se considerar Leo uma biografia. Cada momento da vida corresponde a uma determinada parte do texto: Infância: linha 1 até l. 8; adolescência/descoberta do amor: l. 10 até l. 17; busca de um lugar para viver: l. 19 até l. 26; busca da satisfação de um ideal e início da tragédia pessoal: l. 28 até l. 35; luta e morte: l. 37 até l. 44; continuidade no filho: l. 46 até l. 53.
2. O texto apresenta imagens que traduzem o idealismo da personagem Leo: "A cara, a coragem/e um plano de vôo" (linhas 25/26); "Um plano de vôo/e um segredo na boca,/um ideal" (linhas 28 a 30); "Um livro, um recado,/uma eterna viagem,/a mala de mão" (linhas 22 a 24).
3. Leo teve um destino trágico. O texto refere que ele morreu assassinado por um tiro. As circunstâncias dessa morte recordam a época da guerrilha no Brasil.
4. No texto, é estabelecida uma relação entre o destino do pai e o destino do filho. O destino do filho é retomar e continuar a vida do pai a partir do ponto em que ela foi interrompida. O texto indica isso através do recurso formal da repetição de imagens atribuídas inicialmente ao pai (logo no início da canção) e agora, ao filho. Instaura-se, dessa forma, o percurso cíclico das gerações.
5. A predominância forte do artigo indefinido cria um método de narrar muito sugestivo: são os dados da vida de Leo, comuns a todos os outros semelhantes, que acabam por formar um conjunto único, pessoal. Observe que das generalidades encadeadas se obtém chegar ao particular.    

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Ano III - número 18 - nov./dez. / 14: Estudo dos adjetivos (classe variável) - texto 2

TEXTO:
A pedra
  1. A pedra é bela, opaca,
  2. peso-a gostosamente como um pão.
  3. É escura, baça, terrosa, avermelhada,
  4. polvilhada de cinza.
  5. Contemplo-a: é evidente, impenetrável, 
  6. preciosa. 

     (Antônio Ramos Rosa)


ANALISANDO O TEXTO
1. A adjetivação dos quatro primeiros versos cumpre um papel diferente do que é exercido pela adjetivação dos dois últimos versos. A adjetivação dos quatro primeiros versos indica os aspectos físicos do objeto, atuando com finalidades descritivas: "opaca", "escura", "baça", "terrosa", "avermelhada", "polvilhada de cinza" fazem a descrição da pedra. Porém, há uma exceção: o adjetivo "bela", que traz uma certa subjetividade. Já os adjetivos "evidente", "impenetrável" e "preciosa" indicam a subjetividade do eu lírico, que revela os sentimentos despertados pela contemplação da pedra. Detalhe: o último adjetivo, "preciosa", é capaz de causar uma ambigüidade no poema. Não parece indicar que a pedra possua alto valor comercial, mas que se tornou rica sob o olhar de quem a contempla por suas qualidades.
2. O eu lírico consegue transformar um elemento do mundo físico num elemento repleto de humanidade através da evolução nítida da adjetivação do texto. Esta passa claramente da caracterização física para a caracterização psicológica. Assim, o texto demonstra como os dados do mundo que nos rodeiam adquirem sentidos devido à ação de nossa sensibilidade a respeito deles.  
 

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Ano III - número 17 - set./out. / 14: Estudo dos adjetivos (classe variável) - texto 1

TEXTO:
Extermínio também é brincadeira
Gilberto Dimenstein

         BRASÍLIA - A imprensa revelou ontem uma nova "brincadeira" inventada por crianças numa escola do Rio. O nome da brincadeira: "extermínio". No intervalo, escolhem um menino pequeno a ser submetido a uma sessão de pancadaria. Na quarta-feira passada, um garoto de sete anos, uma das vítimas, foi levado pela mãe direto ao Hospital da Lagoa. Estava com o corpo repleto de hematomas.
            O terrível da notícia não é apenas o garoto cheio de hematomas, mas como a violência vai-se incorporando ao cotidiano, capaz de virar brincadeira. A banalização da violência é, hoje, a principal questão política brasileira _ interessa mais à população do que a reforma ministerial ou a composições no Congresso. Está em jogo a eficácia do Estado de Direito democrático. Está em jogo também direito à vida. Em certas áreas, o direito de ir e vir é uma ficção. Quem vai pode não voltar.
         Daí ser absolutamente espantosa a reação de Leonel Brizola à entrevista do ministro Célio Borja. O ministro comparou o Rio a Beirute no auge da guerra. Brizola preferiu, entretanto, fazer uma competição. Disse que São Paulo era pior _ portanto é, concluiu com a precisão de engenheiro, uma "Beirute e meia". Só a indigência pode explicar a comparação macabra. O governador parece mais preocupado com a estatística do que com a violência.
      Tanto faz se o assassinato é no Rio, São Paulo, Paraná. A degradação é nacional. Quando crianças inventam brincadeiras como "extermínio", a vergonha não é do carioca, mas do brasileiro. Quando os governadores Luiz Antônio Fleury Filho e Leonel Brizola ficam competindo para saber quem administra o Estado menos violento, a vergonha não é do Rio ou São Paulo _ é de todos nós.
             Essa medíocre disputa não ajuda ninguém. Ambos, na realidade, deveriam estudar, juntos, mecanismos de colaboração, já que os marginais não são bairristas _ assaltam e matam em qualquer lugar. Será mais civilizado e inteligente que eles se comovam mais com o menino de sete anos cheio de hematomas do que com as estatísticas de uma competição inútil.  (Folha de S. Paulo, 24/4/92.)


ANALISANDO O TEXTO
1. Os dois primeiros parágrafos introduzem e delimitam o assunto do texto: a banalização da violência no cotidiano brasileiro. O texto chega a esse assunto depois de, no primeiro parágrafo, apresentar a nova brincadeira das crianças de uma escola da cidade do Rio de Janeiro. O segundo parágrafo faz um comentário dessa brincadeira, definindo, assim, o tema do texto.
2. A palavra daí, no começo do terceiro parágrafo, estabelece uma relação entre o conteúdo dos dois primeiros parágrafos (a exposição da nova brincadeira infantil e a constatação da banalização da violência) com dados novos: as palavras do então governador do estado do Rio de Janeiro em resposta a comentários do então ministro da Justiça. A relação estabelecida é de causa e conseqüência entre as informações iniciais sobre a violência e o espanto provocado pelas declarações do governador.
3. O quarto e o quinto parágrafos expõem a conclusão a que o texto chega: em lugar de disputas estatísticas, os governadores dos estados do Rio e de São Paulo deveriam esforçar-se para combater a violência _ banalizada e interestadual. Ao expor essa conclusão, o texto retoma a brincadeira infantil inicial, particularmente a vítima dela, e a relaciona com os governadores.
4. Com certeza, o título do texto é irônico, pois, além de se referir à nova brincadeira infantil, indica que o extermínio real, banalizado na existência cotidiana, tem sido tratado com muito pouca seriedade por aqueles que deveriam tentar diminuí-lo.
5. Existe diferença de significado entre as formas "a terrível notícia" e "o terrível da notícia". A segunda forma realça a qualidade, o atributo, e não o ente qualificado.
6. No terceiro parágrafo, o adjetivo "espantosa" se encontra no grau superlativo analítico, formado pela utilização do advérbio de intensidade "absolutamente".
7. O adjetivo "pior", também no terceiro parágrafo, encontra-se no grau comparativo de superioridade porque compara os estados do Rio de Janeiro e de São Paulo _ o segundo é descrito como mais violento nessa passagem. "Pior" significa "mais mau". Portanto, é comparativo de superioridade.
8. No quarto parágrafo, o adjetivo "violento" está no grau comparativo de inferioridade. Os dois estados já citados são comparados novamente.
9. No último parágrafo, o produtor do texto emprega uma adjetivação: "medíocre", "juntos", "bairristas", "civilizado", "inteligente", "inútil". A maior parte desses adjetivos, sobretudo os mais "fortes", indicam julgamentos do autor do texto a respeito dos fatos por ele apontados. Provavelmente os governantes mencionados não considerem sua disputa medíocre ou inútil, por exemplo. 

sábado, 19 de julho de 2014

Ano III - número 16 - jul./ago. / 14: Estudo dos substantivos (classe variável) - texto 2

TEXTO: 
Circuito fechado (1)

         Chinelos, vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. Escova, creme dental, água, espuma, creme de barbear, pincel, espuma, gilete, água, cortina, sabonete, água fria, água quente, toalha. Creme para cabelo, pente. Cueca, camisa, abotoaduras, calça, meias, sapatos, gravata, paletó. Carteira, níqueis, documentos, caneta, chaves, lenço, relógio, maço de cigarros, caixa de fósforos. Jornal. Mesa, cadeiras, xícara e pires, prato, bule, talheres, guardanapo. Quadros. Pasta, carro. Cigarro, fósforo. Mesa e poltrona, cadeira, cinzeiro, papéis, telefone, agenda, copo com lápis, canetas, bloco de notas, espátula, pastas, caixas de entrada, de saída, vaso com plantas, quadros, papéis, cigarro, fósforo. Bandeja, xícara pequena. Cigarro e fósforo. Papéis, telefone, relatórios, cartas, notas, vales, cheques, memorandos, bilhetes, telefone, papéis. Relógio. Mesa, cavalete, cinzeiros, cadeiras, esboços de anúncios, fotos, cigarro, fósforo, bloco de papel, caneta, projetor de filmes, xícara, cartaz, lápis, cigarro, fósforo, quadro-negro, giz, papel. Mictório, pia, água. Táxi. Mesa, toalha, cadeiras, copos, pratos, talheres, garrafa, guardanapo, xícara. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Escova de dentes, pasta, água. Mesa e poltrona, papéis, telefone, revista, copo de papel, cigarro, fósforo, telefone interno, externo, papéis, prova de anúncio, caneta e papel, relógio, papel, pasta, cigarro, fósforo, papel e caneta, telefone, caneta e papel, telefone, papéis, folheto, xícara, jornal, cigarro, fósforo, papel e caneta. Carro. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Paletó, gravata. Poltrona, copo, revista. Quadros. Mesa, cadeiras, pratos, talheres, copos, guardanapos. Xícaras. Cigarro e fósforo. Poltrona, livro. Cigarro e fósforo. Televisor, poltrona. Cigarro e fósforo. Abotoaduras, camisa, sapatos, meias, calça, cueca, pijama, chinelos. Vaso, descarga, pia, água, escova, creme dental, espuma, água. Chinelos. Coberta, cama, travesseiro.  
(Ricardo Ramos, Circuito fechado)


ANALISANDO O TEXTO
1. "Circuito fechado" consiste em uma história que nos é contada, explorando a característica essencial dos substantivos, que é a função de nomear os seres e dados da nossa realidade. A história é contada através da enumeração de seres que mantêm entre si um sentido que o leitor consegue captar. Por meio desse sentido, o leitor constrói a história que está sendo contada.
2. O texto nos conta a história de um típico dia na existência de um homem que trabalha numa agência de publicidade, desde o despertar até o anoitecer. A relação entre essa história e o título do texto está no circuito que é fechado porque se repete invariavelmente todo dia.
3. A personagem apresentada pelo texto possui as seguintes características: trata-se de um homem que trabalha num escritório ou agência de publicidade. Esse dado, somado a outros, como a posse de um carro e de um televisor e o uso de determinados trajes, permite-nos localizá-lo socialmente: principalmente é um homem solitário, cuja vida se encontra amarrada a uma rotina que o angustia.
4. Neste texto, não se notam praticamente substantivos abstratos. Tal fato nos permite concluir que a história é contada pela enumeração dos objetos com que a personagem do texto entra em contato durante o dia. Daí a ausência de substantivos abstratos, que estariam ligados a dados do mundo psicológico não mencionados de modo explícito no texto.
5. Sugestão: Experimente contar um dia típico de sua vida, utilizando o mesmo processo usado neste texto. 

sábado, 24 de maio de 2014

Ano III - número 15 - mai./jun. / 14: Estudo dos substantivos (classe variável) - texto 1

TEXTO:

Paixão, ódio, traição,
amor, lágrimas, paz,
suspense, morte, sexo,
alegria, ficção, terror,
aventura, humor, dor,
medo, ambição, sonho,
história, matemática,
geografia, surpresa,
espionagem, saudade e
guerra no Riocentro.

   IV Bienal do Livro.
(Leia, agosto/89)


ANALISANDO O TEXTO
1. "Riocentro" é o único substantivo próprio presente neste texto publicitário.
2. Há dois substantivos derivados: "traição" e "espionagem".
3. Há também dois substantivos compostos: "geografia" e "Riocentro".
4. Predominam os substantivos abstratos, pois o texto apresenta sentimentos e nomes de ações que são temas da literatura.
5. O texto é formado quase exclusivamente por substantivos. Essa enumeração torna possível uma sintética e expressiva exposição da diversidade de possibilidades de um certo produto ou evento. Cada substantivo utilizado nomeia um dado do universo cultural capaz de ser localizado em uma feira de livros.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Ano III - número 14 - mar./abr. / 14: Estrutura e formação das palavras - II: composição e outros processos - texto 3

TEXTO:
Biotecnologia: Na base de tudo, a fermentação, no passado vista como coisa do diabo


         Na Idade Média, os pães eram feitos nos mosteiros. Havia mistério naquele movimento interno da massa, que crescia como se tivesse vida própria. Por isso, os monges piedosos acompanhavam todo o processo a rezar. Rezavam sempre e com fervor, pois acreditavam que o crescimento da massa era arte do demônio. Da mesma forma como havia o demo também atrás da fabricação do queijo, da cerveja e do vinho. Se não fosse o diabo, como explicar então aquela "vida" que de repente começava a pulsar dentro da mistura inerte?
          Foi só muito tempo depois que a humanidade descobriu o que de fato acontecia naquele processo: era a multiplicação de microorganismos num conjunto de reações químicas, que ficou conhecido então como fermentação. Hoje, curiosamente, esse mesmo processo está na base de uma das principais ciências de nosso século: a biotecnologia, que trata justamente do desenvolvimento e uso de seres vivos, inteiros ou em partes, na produção de alimentos e remédios em laboratórios.
             Quando o mundo se deu conta dos potenciais da biotecnologia nos anos 70, teve início um febril corre-corre nos meios científicos. Falava-se em criar plantas perfeitas, enormes e imunes a pragas e doenças, que revolucionariam a agricultura e resolveriam o problema da fome no mundo. Na medicina, acreditava-se que a cura do câncer, com a ajuda da nova ciência, estaria ao alcance da mão. E apostava-se também na criação de uma espécie de fonte da juventude, desenvolvendo hormônios capazes de retardar o envelhecimento das pessoas. Delirou-se, enfim.
       Depois que a poeira dos sonhos baixou, foi possível ver com serenidade do que era capaz a biotecnologia. Sem contar as pesquisas ainda em andamento, os produtos efetivos da nova ciência somam hoje algo em torno de uma dezena, mas tão importantes que é difícil enumerar os benefícios que trarão à humanidade em diversos setores.
        Os exemplos mais conhecidos são o hormônio que aumenta a produção do leite nas vacas, rejeitado no início pelos fazendeiros, temerosos de que isso faria os preços do produto caírem. Ou um novo tipo de tomate, mais graúdo e carnoso, que permite a produção de sucos e extratos mais concentrados. Ou ainda novas mudas de plantas, cultivadas em laboratório por uma técnica chamada micropropagação, que são mais viçosas e robustas que as normais.     (Revista Globo Ciência)

ANALISANDO O TEXTO
1. As palavras "microorganismo" e "micropropagação" possuem o elemento formador de origem erudita "micro-", que significa "pequeno". Portanto, elas estão ligadas ao mundo dos organismos microscópicos.
2. O processo de formação da palavra "corre-corre" é a composição por justaposição. Existe, na verdade, nela, um processo de repetição vocabular, muito utilizado para indicar movimento.
3. Com base na divisão em parágrafos do texto, podemos esquematizá-lo e explicar o tipo de orientação seguida na exposição dos dados: 1º.) Idade Média: o crescimento da massa do pão era visto como coisa do demônio; 2º.) Explicação do fenômeno do parágrafo anterior enquanto fermentação e apresentação da biotecnologia; 3º.) A biotecnologia provoca um entusiasmo inicial; 4º.) Momento atual da biotecnologia; 5º.) Expansão do parágrafo anterior, com explicitação dos produtos mencionados anteriormente. Concluindo: o texto opta pela seqüência histórica, começando da Idade Média para chegar aos dias de hoje.
4. O sentido da palavra "biotecnologia" a partir dos elementos que a formam é o seguinte: "bio-": vida; "-tecno-": técnica, arte, conhecimento de como se faz; "-logia": estudo, ciência. Portanto, trata-se da tecnologia, isto é, do conhecimento técnico das coisas vivas. Essa palavra é um exemplo perfeito de como os radicais eruditos são usados na linguagem técnica e científica para nomear novos dados e fatos.